quinta, 02 de abril de 2020

GENTE DA NOSSA TERRA – Poeta centenariense expressa a saudade por sua terra natal em forma de poesias


Diferentemente das últimas publicações no Gente da Nossa Terra, que apresentou centenarienses que são destaque no esporte, dessa vez vamos apresentar aqui um centenariense que é destaque por suas poesias.

José Carlos Monteiro, é escritor e atualmente reside em Rolândia-Pr, saiu de Centenário do Sul no ano de 1975, mas nunca esqueceu suas raízes inclusive prestadas em forma de homenagem no poema chamado Esconderijo da Lua, uma crônica que conta a história do local onde o poeta nasceu e viveu com seus familiares. O Local é conhecido por Água do Rondon, onde nas décadas de 60 e 70 habitavam muitas famílias. José Carlos Monteiro é filho da Dona Terezinha Coutinho Bastos Monteiro e do Senhor José Monteiro Filho. Seu livro está em fase de correção, e brevemente estará disponível nas bancas. O poeta José Carlos Monteiro é filho de Centenário do Sul, é Gente da Nossa Terra.   

Leia abaixo algumas das obras do poeta.

 

Esconderijo da lua.

Uma longa aventura que atravessou o século começou há muito, muito tempo. E num lugar bem diferente dos que encontramos hoje devido às estruturas arquitetônicas. E tudo que ali habitava encontrava-se em harmonia com o rumor silencioso da mata de espessura quase impenetrável. Paradisíaco e à beira de um rio de leves corredeiras, onde uma belíssima paisagem cobria de ponta a ponta àquelas redondezas: rio Rondon – Centenário do Sul, PR. Nesse lugar, em 1953, eu nasci num berço de palha e nos braços da felicidade chamada Terezinha, minha saudosa mãe. Disseram-me, meus pais, algum tempo depois, que eu cheguei chorando para contagiar a todos, eles e outras duas irmãs, de alegria. Minhas irmãs, Cidinha e Vera, ao longo do tempo, como se faz em família numerosa e pobre, foram os esteios na formação das crianças a na estrutura daquele lar tão singelo. Delas colhi bons exemplos e ensinamentos como lição de vida. Naquele lugar podia ser encontrada uma arquitetura vernacular (aquela que utiliza os materiais disponíveis no local), no caso: argila, cipó, palmito, varas, enfim, tudo que a natureza provia para a ocasião. Local pitoresco e muito diferente para os dias de hoje. Todas as construções da propriedade, desde as moradias, do paiol, do chiqueiro, do poleiro ao monjolo eram de brutal rusticidade. Todas de pau a pique, piso de chão batido, paredes com varas entrecruzadas com cipó, reboco de barro com enxaiméis (estacas grossas) nos cantos para suportar a cobertura com tabuinhas. Apenas como valia contra o sereno, o frio, a chuva e algum bicho. Mais nada! Sem nenhum conforto. Apenas o calor do fogão à lenha, a Graça de Deus, e o calor do amor daquelas criaturas servia como cobertor nos momentos difíceis. Mas era dali, da porta da sala que dava acesso ao curral, que podíamos ouvir a cantiga das corredeiras do rio voando com as asas de um sonho infinito. Um sonho de viver em paz, de cantar com os passarinhos, de embrenhar na mata e depois voltar para casa com a roupa emaranhada de ramos e de flores carregados com pencas de borboletas. A noitinha trazia consigo, até a minha janela, um céu pesado de estrelas e enluarado. Pelas veredas via-se a dança dos vaga-lumes rodando, rodando, ora por alguma pirambeira, ou caindo no fundo de algum grotão. Um deslumbrante sereno de luzes. No raiar, a sonoridade canora dos pássaros, a liberdade da brisa, o murmúrio do rio que despertava com o escachoar da cachoeira que, enfim, desfazia-se do curso do remanso. Rompeu naquela hora do nevoeiro, o arco-íris. E foi ele quem trouxe às cores os polvilhos das penugens da ave dessa paz serena. É o despertar da natureza que surge embrulhada com laços de flores e com suas tranças carregadas de pérolas transluzindo finíssimos rabiscos de sol. Um paraíso o nosso lugar, o nosso rancho! Que fosse ele de palafita. Mas não! Era inteirinho feito de pau a pique. Um luxo o nosso palácio de abajur de lamparina. Mas não era só de brisa que se vivia. Muitas vezes formava lá na encruzilhada um daqueles ventos desabridos que vinha retorcendo-se pelo pasto, saraivando redemoinhos estralando moitas de taquaral e jogando fora dos galhos alguns ninhos mal cerzidos. Passava uivando deixando um trágico borrão. Mas a natureza tem esse poder de se levantar com a mesma beleza e leveza como caíra: emaranhada num rebuço de flores. Enfim, daquela janela da criancice eu vi esse tempo passar. E quando chega a hora de partir para conquistar os sonhos que sonhamos ter, é, sem dúvida, à hora mais amarga. Os pais à soleira da porta do rancho, cabelos brancos, sorrisos amarelos e com a voz embargada dizendo: ___ Cuidado! Lá no seio do povo é diferente. Repares bem o que fazes, depois de feito é difícil desfazer. Mas vá! Deus te acompanhe. Siga o teu caminho e não olhes para trás, para não ver as lágrimas nos olhos dos teus velhos... Meu rapaz. Fui seguindo assustado, angustiado e tropeçando pelas pedras do caminho. Deus! Essa hora de ir embora é doída. Tenho vontade de voltar àquele lugar. Pode não ser mais como era, mas o lugar permanece lá. O tempo não! Luas e luas se passaram... E hoje ela encontrou-me aqui na varanda. Isso me fez lembrar aquele lugar especial aonde a lua ia se esconder. E caso um dia recair as dores causadas pela saudade da juventude, farei como faz a lua: voltarei para àquele lugar onde nasci, pois dizem que na terra natal a dor dói menos. E em vindo, agora, aproximar o derradeiro sono, é meu desejo: tê-lo sereno assim, enluarado e todo estrelado, ou todo sol, aberto sobre mim. Hoje, mentalmente, estampo na moldura do tempo, com pincel de palavras, aquele lugar aonde a lua se fez poema. Quando escrevo, entre tantas coisas que sinto, reparo em minhas mãos manchas e veias envelhecidas.

                                                                                                                 José Carlos Monteiro - 29/06/2013.

 

Bruma do tempo

Passo a vida toda admirando... E tudo o que é belo não se perdeu. Ouça... Ouça o riso do tempo bailando com a bruma. Ontem choveu pela janela. Chuva mansa, mas fria. Dessas chuvas de cantilena. Mesmo assim não fechei a janela. Deixei acontecer. A chuva caindo, parecia implorar. Deixa... Deixa. Nem sempre fazemos. Nem sempre podemos. Mesmo querendo tanto. Até parece um sonho que não morreu. Tudo passou tão de repente. Na bruma do tempo. Ah ontem com tanta chuva caindo pesada. Eu vi no jardim a flor deixar-se ao tempo. Para escorrer-lhe entre as nervuras das folhas, os pingos de cada chuva. Isso acontece a todo instante. Na bruma do tempo. Ah se eu pudesse amar realmente como amei em pensamento... Tudo seria diferente.

                                                                                                                 José Carlos Monteiro – 29/12/2015.

 

Meu cavalo pedrês.

Livres em busca de aventura, como se estivessem presos para a eternidade. O menino e o cavalo. Quando menino eu participava de algumas competições de raia – corrida de cavalos. Aquilo tudo era muito divertido. Em meio àquele desenfrear de estampidos e estrondos de cavalhadas, sentia que o chão parecia tremer. Meu cavalo também parecia sentir o mesmo, ele ficava impaciente e num tremor espasmódico. Eu não sabia exatamente o motivo: se o momento de tensão, ou algo o apertando e fazendo cócegas. Na semana que antecedia a corrida circulava pelas ruas as notícias e a vida calma da minha cidade Centenário do Sul-PR transformava. Nos restaurantes, nos bares, nos pontos de táxi, todos burburinhavam. Eu andava angustiado, contando as horas e os minutos. Naquela tarde de domingo tão esperada lá estaríamos, eu e o meu cavalo. Havia um comentário que o Senhor Bigode trouxera de longe um cavalo famoso no qual o povo ia direcionando suas apostas. Outra informação era a presença de certo “jóquei”. Nada disso causou-me perturbação - o cavalo famoso eu não temia, e esse tal jóquei eu não sabia do que se tratava. Eu estava mais preocupado em preparar o meu cavalo. Enquanto ia enrolando a crina em tranças, também ia tecendo alguns truques no pensamento. Ali, naquele instante, via tudo passar na mente com a rapidez de um vento desabrido. Chegou, enfim, o momento. Todos emparelhados. Só ouvi um estrondo que continuou reboando no ar. Pensei que os espíritos dos trovões estivessem soltos e envoltos naqueles redemunhos de poeira levantada da terra esfarelada pelo troar do tropel da cavalhada que urdia desordenadamente. Percebi que meu cavalo não corria. Ele voava. E após todo aquele alvoroço da largada, a sonoridade que eu ouvia era a voz do vento que zunia... Eu galopava agarrado às tranças da crina, sem sela e sem arreios. Totalmente em pelo. Voávamos como voam livres as aves no firmamento. Nos últimos cinquenta metros a corrida tinha de ser resolvida. Dali em diante já não comia poeira. Ela foi ficando para trás junto com uma trovoada de cascos, gritos e relinchos. Somente o vento seguiu zunindo até cruzarmos a linha de chegada da grande raia da minha vida. Uma vitória e tanto! O coração pipocava no peito. De repente aquela gente toda me olhando. Eu, entremeado na multidão e puxando o meu cavalo pela rédea encabrestada. Nisso uma senhora aproximou e entregou-me um buquê de flores. Afinal, o coração desacelerou ao sentir o perfume da vitória. Diante dos foguetórios aquela senhora proporcionou uma cerimônia simples, para um simples menino displicente e sem medalhão e, tão somente, com um cavalo pangaré, um azarão. De simples, o cerimonial foi interessante. Foi lindo! As demais solenidades festivas continuavam apagando a nódoa da disputa e o rancor dos desvalidos da sorte. Para mim um fato inusitado, incomum para um menino que carregava um fogo intenso de alegria. Só isso. E eu queria dividi-la com os amigos do meu bairro: a barroca. Principalmente com o amigo Tutu. Companheiro inseparável de cavalgadas que no dia da raia não pôde acompanhar porque se encontrava acamado com icterícia e febre. Enquanto os outros meninos tagarelavam e ao mesmo tempo perguntavam sobre os acontecimentos, eu, felicíssimo ia respondendo sem saber a quem. Diante do furor, pedi silêncio. ___Sosseguem! Podem acalmar os seus corações! Nós vencemos! Somos os meninos da barroca! Esqueceram? E lá houve muita grandeza. Competiram cavalos de toda a redondeza que vieram transportados em baias. Chique! Teve até jóquei. Até então não sabia o que era jóquei, achei que fosse algum cavalo. Somente depois quando aquele homenzinho de capacete e pequeno igual a mim, só não tinha cara de menino, estendeu-me a mão em cumprimento, finalmente elucidou-se a dúvida. Não fiquei sabendo da colocação do tão comentado cavalo que o Senhor Bigode levou para a corrida com tanta pompa. O importante é que vencemos com nosso cavalo pedrês. O pangaré! Eu sabia! Meu cavalo correria através do fogo por mim. Podia sentir o vigor das lufadas de assopros pelas ventas do pedrês quando eu deixava as rédeas descansarem do peso do bridão. Hoje não posso fazer muita coisa quanto a isso tudo. Apenas relembrar e escrever. Fico nessas horas com a voz embargada. Mas, nos olhos pirilampeiam faíscas de alegrias. Foi muito bom ter recebido aquelas flores. Ainda sinto no ar aquele doce perfume. A essência do presente. Saudade, a companheira que punge que consola e que alumia... Da saudade eu tenho medo. Dos seus caminhos eu conheço todos os enredos. “Poesia é vida interior. E quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”.

                                                                                                                  José Carlos Monteiro -15.05.2011.

 

 

 

 

 

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Data: 23/05/2017 10:25:20
Categoria: Comunicação

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